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# Introdução

Versão 0.1.! - 2026-04-10

## Infraestruturando

> O que vai mandar no mundo atualmente vai ser refrigeração, eletricidade e
> informática.
>
> -- Tião Miranda, compositor de Bezerra da Silva (no documentário [Onde a Coruja Dorme][Tião Miranda]).

[Tião Miranda]: https://youtu.be/1zd9yhxubuM?si=8Qw3wYD36uNYFU2A&t=160

Se estamos a tratar sobre infraestruturas, que tal começarmos justamente pelas
questões "infraestruturais" sobre o que seria exatamente infraestrutura,
datacenter e autonomia neste contexto?

### O que é infraestrutura?

* Podemos entender "infra" como aquilo que vem abaixo, aquilo que apoia e
  fundamenta, serve de **base**.
* Ou seja, seria a "linha de base" ("baseline") a partir da qual outras
  atividades podem ser realizadas.
* Em resumo, aquilo que é *básico* e ao mesmo tempo *estruturante*
  para outras atividades poderia ser chamado de *infraestrutural*.

### O que é digital?

* "Informações" são registros físicos, inscritos em algum lugar. _In-forma_,
  "forma intensa".
* Não existem num "firmamento" etéreo/metafísico.
* Uma das maneiras de registrar e processar "informação" é através de "dados",
  entendidos aqui como porções de "informação" codificadas.
* Um dos procedimentos codificar, isto é, produzir estes dados, ocorre através
  da "digitalização", que transforma uma informação não-digital em números
  "redondos" (exatos)[^informacao-dados-digital]: **0**, **1**, **2**, **3**...
* Não é porque não "vemos" ou "sentimos" a transmissão, o processamento
  e o armazenamento de dados que a computação é feita num plano não-material.

### E o que seria infraestrutura digital?

* Trocando em miúdos, seria o que diz Tião Miranda, sem pôr nem tirar:
  **Eletricidade, Informática e Refrigeração!**
* A computação, isto é, o processamento, armazenamento e transmissão de
  informações, ocorre em dispositivos físicos[^computacao-digital].

### Infraestruturas digitais são, portanto, **muito** físicas:

<!--
* Mas coisas digitais seriam físicas? Não seriam elas coisas imateriais?
-->
* Não existe "nuvem" de dados, mas sim algo mais parecido com "parques" de computadores,
  isto é, de máquinas físicas realizando o trabalho.
* Essas máquinas precisam de energia para funcionar. Elas precisam ser fabricadas,
  e para tanto elas requerem a mineração de vários materiais. Elas eventualmente
  deixam de funcionar e, quando não são mais consertadas, acabam indo para depósitos
  de lixo ou, com sorte, sendo recicladas.
* Os chamados "data centers", ou "centros de dados", são locais onde o
  processamento e o armazenamento de dados ocorrem de maneira mais "densa"
  do que por exemplo no seu computador pessoal ou dispositivo móvel.
* Quando alguém diz armazenar ou rodar na "nuvem", muito provavelmente está
  se referindo aos computadores de terceiros.

### Quem detém as infraestruturas digitais hoje? E em qual modo de operação?

* Sucintamente, a maior parte da infraestrutura digital é construída e operada
  por imensas corporações multinacionais, muitas delas conhecidas pela
  alcunha de "Big Techs".
* As "Big Techs" operam dentro da lógica ultracapitalista, autoritária
  predatória: sugam "recursos" minerais, energéticos, humanos e informacionais.
* As infraestruturas estatais existem em menor grau, e tem sido reduzidas
  (isto é, desmanchadas) a cada dia numa imbricação com as Big Techs, dentro
  da lógica adicional de um capitalismo de vigilância estatal-privada.

### Computação é a política por outros meios

* Arriscamos a afirmar que a computação antes de tudo (e infelizmente) tem sido
  usada como instrumento de controle social e guerra.
* Exemplos não faltam. Alguns deles:
    * O [uso de computação da IBM durante o holocausto nazista][ibm-holocausto]
      (tema [abordado na CryptoRave de 2019][cr-2019-hostil]).
    * O "[Infopocalipse][]" dos recentes bombardeios em Gaza, intensificados
      pela seleção de alvos automatizada (tema abordado na CryptoRave 2024).
    * A [análise do processo de digitalização][digital-controle] como iniciativa
      de aumento de controle, e não aumento de "qualidade".
* Mas isso não significa que computação é só isso: podemos nos apropriar dela para
  os nossos intentos.

[info-lixo]: https://informacao.fluxo.info/
[ibm-holocausto]: https://blog.fluxo.info/books/history/ibm-holocaust/
[cr-2019-hostil]: https://blog.fluxo.info/events/2018/cryptorave/hostil/#rebobinando...
[Infopocalipse]: https://informacao.fluxo.info/infopocalipse.html
[digital-controle]: https://saraventos.fluxo.info/digital.html

[^informacao-dados-digital]: Aqui não entraremos na discussão sobre o que é
    "informação" e "dados" (conceitos abordados noutros materiais, como por
    exemplo [neste texto crítico][info-lixo]), nem sobre o que é "digital"
    (algo que fica para uma outra ocasião), mas torcemos que as breves e
    sucintas explicações aqui fornecidas sejam suficientes...

[^computacao-digital]: Estamos restringindo nossa conversa à computação de
    dados digitais. Vale considerar que existem outros tipos possíveis de
    computação, em geral chamada de computação "analógica".

### O que seriam então "infraestruturas autônomas, livre e comunitárias"?

* Numa primeira formulação, seriam aquelas cujo controle está nas mãos de
  grupos e comunidades e não nas de governos e corporações.
* E que não operariam seguindo as mesmas lógicas tristes de opressão e destruição,
  e sim pelo controle popular em contraponto aos controles estatais e corporativos.
* Em resumo, seriam as infraestruturas feitas mais "do nosso jeito", como diz TC Silva.

### Por que hospedar nossa própria infra?

Alguns motivos _básicos_:

* Nossos dados, nossa infra: precisamos ter uma infra nossa, por nós e para nós.
* As infraestruturas autônomas livres e comunitárias são inclusive uma maneira
  de refrear as atuais e absurdas tendências de crescimento das infraestruturas
  autoritárias das "Big Techs".
* Em resumo, infras autônomas livres e comunitárias tanto estão alinhadas com
  princípios de bem viver e autodeterminação dos povos quanto podem enfrentar as
  tendências autoritárias, centralizadoras e anti-ambientais das "Big Techs".

_Mas de quais tendências históricas estamos falando?_

## Tendências tristes

Aquilo que tem sido chamado de "datasfera" (em analogia com "atmosfera",
"biosfera" etc) seria compostas por pontas (dispositivos pessoais etc), bordas
(dispositivos intermediários, como datacenters regionais) e núcleos (os imensos
datacenters):

![Datasfera][datasfera].

Hoje há uma forte tendência atual à centralização desmesurada, com o desmanche
de datacenters locais, com pontas e bordas cada vez menos "densas" em termos de
quantidade de computação. A densificação dos núcleos corporativos implica que
as corporações tem cada vez mais controle sobre a computação realizada.

E o que dizer sobre o crescimento da "datasfera"? A seguir, um gráfico da
quantidade de dados criados por ano, em zettabytes (ZB), segundo Buss et al.
(2019). Os valores para 2025 em diante são projeções[^info-lixo]:

![Tendência para a datasfera][tendencia-datasfera]

E o consumo de energia também só aumenta, conforme o gráfico a seguir do
consumo anual de energia em TWh por Tecnologias de Comunicação, estimado por
Andrae e Edler (2015)[^info-lixo]. Em 2030, a computação poderá usar até 51% da
eletricidade global:

![Energia][tendencia-energia]

[^info-lixo]: Fonte: [Ensaio crítico sobre o conceito de "Informação"][info-lixo].

O quadro atual e ainda pior quando consideramos a pegada ambiental das grandes
infrastruturas digitais das grandes corporações. Segundo Siddik et al. (2021)
a maior parte dos datacenters localizados nos EUA estao em areas com escassez
de agua[^consumo-agua-datacenter].

E como estamos na America Latina? Nao muito melhor, pois em 2015 Google instalou um
data center durante a pior seca da historia do Uruguay, uma infrastrutura com consumo
estimado de agua em 7 milhoes de litros por dia (o equivalente a 55 mil pessoas)
[^google-uruguay].

[tendencia-datasfera]: https://informacao.fluxo.info/_main_files/figure-html/zettabytes-1.png
[tendencia-energia]: https://informacao.fluxo.info/_main_files/figure-html/energia-1.png
[datasfera]: https://informacao.fluxo.info/_main_files/figure-html/datasfera-1.png
[consumo-agua-datacenter]: https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/abfba1
[google-uruguay]: https://www.elpais.com.uy/que-pasa/el-secreto-atras-de-millonaria-inversion-de-google-en-data-center-en-uruguay-gobierno-espera-que-se-confirme

Será que precisamos mesmo de tantos dados e de tanta computação assim para
vivermos de forma digna e respeitosa com o ambiente que nos dá a vida?

## Questão de escala

A escala de todas essas tendências é assombrosa.

As "Big Techs" se colocam como únicas capazes de resolver todos esses "desafios",
mas não podemos deixar de notar que tais "desafios" são impostos por elas mesmas,
numa falsa dicotomia entre alta escala (que seria "eficiente") e baixa escala
(que seria "ineficiente").

A questão da escala tem nuances que precisam ser consideradas para refutar o
autoritarismo das "Big Techs":

* Por um lado, aumentar a escala da infraestrutura significaria datacenters
  cada vez maiores e mais concentrados, que implicariam em redução da força de
  trabalho humana e aumento de eficiência energética. Mas esta linha de
  argumentação tem sido falaciosa:
    * Os ganhos de eficiência não tem reduzido o consumo, muito pelo contrário:
      o que acaba acontecendo é que os ganhos são reinvestidos, e o consumo
      acaba aumentando e intensificando! Cada vez mais conteúdo é produzido,
      mais computação é realizada e mais energia acaba sendo demandada!

    * Espectro da Obsolescência: como se aproveitar dele pra erguer nossa
      infra! Muito lixo (que não é lixo) sendo gerado. Muita capacidade de
      reaproveitamento de máquinas desde que sejamos mais economicos nas
      demandas de banda (rede), disco (armazenamento) e poder computacional (o
      que reverte em economia de energia)

* Por outro lado, aumentar a escala pode significar uma maior quantidade
  de datacenters comunitários integrados e adaptados às necessidades e
  demandas locais, o que aumenta a difusão do conhecimento e a resiliência.
  Também facilita a identificação de quais computações são necessárias para
  o bem viver, o que pode reduzir as demandas energéticas, ao suprir necessidades
  ao invés de criá-las constantemente.

Importante também notar que a questão entre pequena versus grande escala também
pode ser falaciosa, como se só fosse possível escolher entre uma dessas opções:

* Podemos pensar em arranjos sociotécnicos onde coexistam tanto datacenters
  grandes quanto pequenos, todos operados em regime coletivo e comunitário e
  adequados às necessidades socioambientais, respeitando os limites de recursos
  planetários.
* A economia de trabalho, energia e equipamento pode ser alcançada de várias
  maneiras, com investimentos em educação, software e hardware livres focados
  em durabilidade, reusabilidade e facilidade de manutenção.

## Decrescimento e descomputação

Importante notar que o planeta não suportará uma taxa crescente de computação:

* A computação é parte fundamental (infra-estrutural) do desenvolvimento desenfreado.
* É necessário reduzir a quantidade de informação/computação produzidas com base em
  uma política cotidiana de decrescimento (do desenvolvimentismo tecnocientífico/econômico).
* Mais política, menos computação: precisamos definir quais são os problemas que
  precisamos resolver com computação, e quanta computação eles demandam.
  A computação não é a solução para todos os problemas.
* A retrocompatibilidade precisa ser levada mais em conta, ao invés do atual
  desperdício da alta obsolescência (vulgo extinção) técnica. As coisas não são
  ruins só por serem "antigas". Reciclagem também custa caro, mas se faz necessária.

"Descomputação" é um conceito novo, ainda em concepção, que merece ser
discutido em detalhes, talvez num outro momento.

Por agora, basta considerarmos que infraestruturas autônomas comunitárias
não precisam se basear na mesma lógica de intensificação computacional
das "Big Techs", mas sim buscar tecnologias de organização e comunicação
que ajudem na luta pelo decrescimento e pela justiça socio-ambiental.